:: Degustação do Vinho
 

Um pouco da história

A importância histórica e religiosa do vinho remonta à antiguidade e é impossível precisar sua origem, pois o vinho surgiu antes da escrita e sua história se entrelaça com a da humanidade. Desde os mais remotos tempos, quando chegou a ser considerado uma dádiva divina, até os dias de hoje, em que enólogos acreditam ter sido descoberto por acaso, muitos povos de diferentes culturas contaram e recontaram inúmeras lendas e fatos sobre a procedência do vinho, mas nada foi comprovado e o enigma persiste. Entretanto, sabe-se que os hititas – povo indo-europeu que no segundo milênio a.C. fundou um poderoso império na Anatólia, atual Turquia – escreveram pela primeira vez o vocábulo “wee-an”, em grego arcaico “woinos” de onde derivou o termo latino “vinum”.

Durante a Idade Média houve um período conhecido como Idade das Trevas em que a vinicultura só se manteve viva graças ao simbolismo do vinho na liturgia católica. Nessa época, a Igreja desempenhou importante papel desenvolvendo e aprimorando o cultivo de videiras e a produção de vinho, pois tinha seus próprios vinhedos nas terras dos mosteiros que se disseminaram por toda a Europa levando consigo o conhecimento da fabricação da bebida.

No século XVI o vinho fazia parte da dieta diária dos europeus, pois em grande parte da Europa a água potável não era confiável. No século XVII o consumo da bebida decaiu um pouco porque a água potável ganhou credibilidade e em virtude da concorrência com a cerveja, o espumante champanhe, as bebidas destiladas, o chá, o café, o tabaco e o chocolate. O desafio estimulou os viticultores a aperfeiçoarem o processo de produção, novos métodos de fabricação de vidro foram desenvolvidos, a rolha foi inventada e outras transformações e criações positivas mantiveram o vinho competitivo. No século XVIII o vinho francês desabrochou e há quem considere ter sido nesse período que o Bordeaux floresceu e se popularizou. No século XIX a francesa Nicole-Barbe Clicquot-Ponsardin modernizou a indústria do champanhe, ganhou a preferência dos europeus e celebrizou a bebida no mundo. Ainda no século XIX os vinhos do Novo Mundo começaram a desafiar os da Europa. Ohio foi o primeiro estado norte-americano a cultivar uvas com sucesso, mas em pouco tempo a Califórnia tomou seu lugar e em 1889 vinhos californianos ganharam 20 entre 34 medalhas numa competição em Paris.

Com a Revolução Industrial a indústria do vinho sofreu profundas transformações e um bom exemplo disso é o surgimento da refrigeração em 1940. A evolução da ciência e da tecnologia no último século favoreceu o desenvolvimento da vinicultura, entretanto esse avanço também acarretou a tendência de produzir em grande quantidade mesmo que em detrimento da qualidade; portanto, o desafio dos produtores passou a ser uma produção maior, em função da demanda sempre crescente, sem perder a qualidade nem a identidade de seus vinhos.

Degustação

Comece examinado a cor, ela revela muito sobre o vinho. Pode ser brilhante, límpida, turva ou opaca e sem vida; nos espumantes observe também o tamanho das borbulhas efervescentes. Em seguida analise os aromas. Aproxime a taça do nariz, inale suavemente e sinta as primeiras notas aromáticas; depois gire um pouco o copo, inale outra vez para sentir os perfumes escondidos e tente nomear as fragrâncias que percebeu. Quando temos o privilégio de degustar um vinho no apogeu de sua vida, os aromas explodem e a cor nos brinda com sua beleza. Então experimente o vinho, o paladar pode ser ácido, tânico, amargo, doce, quente ou frio e nessa etapa da degustação outros perfumes se revelam porque a temperatura mais elevada da boca faz o álcool evaporar liberando diferentes aromas. Pondere se o gosto do vinho lhe agrada, repare por quanto tempo o sabor permanece em sua boca e imagine com que prato o vinho se harmonizaria. Há regras específicas de harmonização, mas o fundamental é o equilíbrio; o alimento e o vinho devem se complementar e não se sobrepor. Sabores acentuados requerem vinhos tintos e os mais suaves combinam com vinhos brancos.

Ode ao Vinho – Pablo Neruda

 

“Vinho cor do dia

vinho cor da noite

vinho com pés púrpura

o sangue de topázio

vinho,

da terra

vino, liso

como uma espada de ouro,

suave

como um desordenado veludo

vinho encaracolado

e suspenso,

amoroso, marinho

nunca coubeste em um copo,

em um canto, em um homem,

coral, gregário és,

e quando menos mútuo.

O vinho

move a primavera

cresce como uma planta de alegria

caem muros,

penhascos,

se fecham os abismos,

nasce o canto.

Oh tú, jarra de vinho, no deserto

com a saborosa que amo,

disse o velho poeta.

Que o cântaro do vinho

ao peso do amor some seu beijo.

 

Amo sobre uma mesa,

quando se fala,

à luz de uma garrafa

de inteligente vinho.

Que o bebam,

que recordem em cada

gota de ouro

ou copo de topázio

ou colher de púrpura

que trabalhou no outono

até encher de vinho as vasilhas

e aprenda o homem obscuro,

no cerimonial de seu negócio,

a recordar a terra e seus deveres,

a propagar o cântico do fruto.”